Existe uma fantasia que circula nos bastidores da clínica: a de que o terapeuta que cobra menos é mais ético. Que o dinheiro contamina o vínculo. Que aumentar o preço vai fazer o paciente interromper o processo. Essa fantasia tem raízes reais, e vale examiná-la antes de chegar ao lado prático.

Freud foi o primeiro a dizer, em 1913, que o trabalho gratuito ou subvalorizado compromete o tratamento. Não porque o dinheiro seja o objetivo, mas porque o valor pago é parte do setting. É a contrapartida simbólica de um processo que exige comprometimento do paciente. Terapeuta que cobra menos do que deveria por culpa não está sendo generoso. Está sendo incongruente.

Por que a maioria dos terapeutas não reajusta

O impedimento raramente é falta de informação. A maioria dos terapeutas sabe que a inflação corroeu o valor real das suas sessões. Sabe que está cobrando em 2026 o mesmo que cobrava em 2023, e que esse valor compra menos. Sabe que colegas com formação equivalente cobram mais.

O que paralisa é a confusão entre o setting clínico e a relação de cuidado. O terapeuta pensa: "se eu cobrar mais, ele vai embora, e o processo vai ser interrompido, e eu estarei colocando o dinheiro acima do tratamento". Essa lógica parece altruísta. Na prática, é uma forma de evitar o desconforto da negociação usando o paciente como justificativa.

O terapeuta que teme reajustar não está protegendo o paciente. Está protegendo a si mesmo do conflito. O dinheiro, no setting analítico, sempre foi um campo de elaboração, não de evitação. David Carvalho, Psicanalista Clínico Freudiano

A tabela CFP/FENAPSI em 2026

A Tabela de Honorários do Psicólogo, publicada pelo CFP em conjunto com a FENAPSI e reajustada com base no INPC, estabelece os valores mínimos para atendimento psicológico no Brasil. Para 2026, os valores de referência por sessão de 50 minutos são:

Modalidade Valor mínimo (2026) Reajuste base
Atendimento individual presencial R$ 150,00 INPC acumulado
Atendimento online R$ 150,00 INPC acumulado
Atendimento a casais / família R$ 200,00 INPC acumulado
Nota importante Estes são valores mínimos. Não há teto estabelecido. A cobrança acima da tabela é ética e legal.

Para o psicanalista, a mesma lógica de piso se aplica. A psicanálise não é regulamentada, mas profissionais sérios usam a tabela CFP como referência de mercado. Cobrar abaixo dela sem justificativa clínica específica, como atendimento a pacientes de baixa renda com redução consciente e acordada, é subvalorizar a formação e o trabalho.

Como calcular o reajuste correto

Existem três índices que fazem sentido como base para reajuste de honorários terapêuticos:

Índices de referência

Qual usar para o reajuste

INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor): mede a inflação para famílias de baixa e média renda. É o índice usado pela tabela CFP/FENAPSI. Em 2026, acumulado nos últimos 12 meses, gira em torno de 4,8% a 5,2%.

IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo): inflação oficial do governo. Levemente diferente do INPC. Também aceitável como base.

IGP-M: mais volátil, ligado ao mercado imobiliário. Menos recomendado para serviços de saúde, pois oscila mais.

Recomendação prática: use o INPC como base e arredonde para o múltiplo de R$10 mais próximo. Transparência e simplicidade facilitam a comunicação com o paciente.

Exemplo prático

Terapeuta que cobra R$ 180 por sessão há 18 meses, sem reajuste. INPC acumulado no período: 7,4%.

Cálculo: R$ 180 × 1,074 = R$ 193,32. Arredondando: R$ 200,00 por sessão. O reajuste de R$ 20 representa 11% de aumento nominal, mas apenas 7,4% em termos reais. O terapeuta não está ganhando mais. Está deixando de perder.

Quando reajustar

Há três momentos que fazem sentido para comunicar o reajuste:

  • Anualmente, preferencialmente em janeiro ou no aniversário do início do atendimento com cada paciente. Periodicidade previsível reduz o impacto da comunicação.
  • Ao completar um ciclo natural no processo, como o encerramento de uma fase de trabalho intensivo, quando há uma reorganização natural do contrato.
  • Quando o valor atual está claramente abaixo do mercado e isso começa a gerar ressentimento ou desequilíbrio interno no terapeuta. Esse é o sinal mais urgente e menos escutado.

Como fazer a conversa com o paciente

A comunicação do reajuste não precisa ser uma negociação. Precisa ser uma informação clara, com antecedência suficiente, sem pedir permissão nem pedir desculpa.

Passo a passo — como comunicar

O que dizer e o que não dizer

01
Avise com antecedência real: 30 dias é o mínimo. 45 dias é mais respeitoso. Aviso na véspera ou no mesmo dia é inadequado e pode ser sentido como imposição abrupta.
02
Seja direto e breve: "A partir do próximo mês, o valor da sessão passará de R$ 180 para R$ 200. Quero que você saiba com antecedência para se organizar." Não há necessidade de longa justificativa.
03
Não peça permissão: "Gostaria de reajustar, se você concordar" coloca o paciente numa posição de autoridade sobre o setting que não é a dele. O valor do trabalho é definido pelo terapeuta.
04
Escute a reação como material clínico: a resposta do paciente ao reajuste, raiva, silêncio, comparações, ameaça de saída, é conteúdo. Não recue por pressão emocional. Elabore o que aparece.
05
Se o paciente não puder pagar: essa conversa é diferente. Existe a possibilidade de negociação de valor reduzido para casos específicos, desde que seja uma decisão clínica consciente e não uma capitulação por culpa.

O que fazer se o paciente for embora

Alguns pacientes encerram o processo quando há reajuste. Isso acontece. É importante que o terapeuta não interprete essa saída necessariamente como fracasso clínico ou como sinal de que o reajuste foi um erro.

Há pacientes cujo vínculo com a terapia era condicionado ao valor, não ao processo. Há pacientes que realmente não têm condição financeira de continuar. Há pacientes para quem o reajuste foi o gatilho de uma resistência que já estava presente. Em todos esses casos, a saída é material clínico que merece elaboração, não reversão automática do preço.

O terapeuta que reduz o preço toda vez que um paciente ameaça sair não está mantendo o vínculo. Está ensinando ao paciente que a ameaça funciona. David Carvalho, Psicanalista Clínico Freudiano

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DC
David Carvalho Psicanalista Clínico Freudiano · Fundador, Mundo do Terapeuta

Psicanalista clínico freudiano com consultório em Atibaia-SP. Escreve sobre mercado de saúde mental, gestão de consultório e desenvolvimento profissional do terapeuta. Contato: atendimento@mundodoterapeuta.com.br