Quando o CFP regulamentou o atendimento psicológico online pela Resolução 11/2018, e depois atualizou com a Resolução 9/2024, não estava abrindo uma exceção. Estava reconhecendo uma prática que já existia e estabelecendo os limites dentro dos quais ela pode existir com segurança clínica e ética. Desde então, a proporção de terapeutas que atendem ao menos um paciente online cresceu de forma constante. Em 2026, a estimativa é que mais de 60% dos psicólogos clínicos realizam algum atendimento remoto.

O problema é que crescer em volume não significa crescer em qualidade técnica. Muitos terapeutas migram para o online sem rever seus procedimentos, sem pensar no setting como um dispositivo que precisa ser construído ativamente nesse novo contexto. Transferem tudo como estava, só mudam a janela do Zoom.

O que é o setting, de fato

Setting não é o consultório. Setting é o conjunto de condições que torna o trabalho terapêutico possível: horário fixo, frequência regular, tempo determinado, contrato claro, sigilo, neutralidade do espaço, presença do terapeuta. No consultório presencial, parte dessas condições são garantidas pelo ambiente físico quase automaticamente. Online, cada uma delas precisa ser pensada e ativamente protegida.

No presencial, o setting em grande parte se faz sozinho: a sala é sempre a mesma, o silêncio é controlado, a saída do paciente é física. Online, o setting só existe se o terapeuta o constrói com cuidado e o sustenta sessão a sessão. David Carvalho, Psicanalista Clínico Freudiano

Isso não é deficiência do setting online. É sua característica. E ignorar essa característica é a fonte de boa parte dos problemas clínicos que aparecem nos atendimentos remotos: descontinuidade, interrupções técnicas tratadas como irrelevantes, falta de ritual de início e encerramento, paciente atendido do carro, do trabalho, do banheiro.

O que muda no online

O espaço físico não é controlado pelo terapeuta

No presencial, o terapeuta garante o espaço: temperatura, silêncio, mobiliário neutro, ausência de interrupções. Online, o espaço do paciente é o espaço dele, com tudo que isso implica. Televisão ao fundo. Filhos que entram. Cachorro que late. Câmera posicionada de um jeito que não favorece o contato.

Isso não inviabiliza o atendimento. Mas exige que o terapeuta trate o espaço do paciente como parte do setting e, desde o contrato inicial, estabeleça o que é necessário para que a sessão aconteça com dignidade clínica: lugar privado, câmera estável, áudio funcional, sem interrupções previsíveis.

A leitura corporal é parcial

A tela enquadra o rosto e, na melhor das hipóteses, o busto. O que está fora do quadro não aparece. Postura, movimentos das mãos, agitação das pernas, como o paciente entra e sai da sessão, tudo isso desaparece ou se reduz. O terapeuta trabalha com informação corporal incompleta.

Isso não elimina o trabalho. Mas exige consciência da limitação. Alguns terapeutas desenvolvem uma escuta mais refinada dos elementos que aparecem na tela: expressão facial, variação da voz, o que o paciente faz com a câmera, se mantém o rosto visível ou se vira. O enquadramento da câmera do paciente é, em si, um dado clínico.

As falhas técnicas são eventos clínicos

Queda de conexão, travamento de áudio, câmera que desliga. Quando isso acontece no meio de um momento de intensidade emocional, não é só um inconveniente técnico. É uma ruptura do setting. Como o terapeuta lida com isso, com que rapidez retoma o contato, como trata a interrupção na sessão seguinte, é matéria clínica.

Resolução CFP 9/2024

O que a norma exige para o atendimento online

A resolução atualizada do CFP estabelece que o atendimento psicológico online exige: cadastro ativo no e-Psi (Hoje não mais obrigatória), plataforma com criptografia de ponta a ponta, contrato escrito com especificações do formato online, sigilo reforçado pelo uso de ferramentas seguras, e impossibilidade de atendimento em casos de risco iminente sem protocolo de segurança estabelecido. O não cumprimento constitui infração ética passível de sindicância.

O que não pode mudar

A regularidade e o contrato

Horário fixo, frequência acordada, duração determinada. Esses elementos não são detalhes administrativos: são a estrutura sobre a qual o vínculo terapêutico se constrói. Sessões que começam atrasadas por falhas de conexão tratadas como normais, horários que se deslocam facilmente porque o online parece mais flexível, sessões encurtadas sem elaboração: tudo isso corrói o setting tanto quanto corroeria no presencial, com a diferença de que no online é mais fácil naturalizar.

O sigilo e a segurança dos dados

Prontuários em papel perderam o sentido para quem atende online. Mas prontuários digitais em ferramentas sem criptografia são um problema ético e legal. A LGPD se aplica integralmente ao consultório do terapeuta. Dados de pacientes armazenados em aplicativos de mensagem, planilhas abertas ou ferramentas sem segurança comprovada expõem o profissional e o paciente.

A Resolução CFP 9/2024 é explícita: a plataforma usada para o atendimento precisa ter criptografia de ponta a ponta. Não basta usar qualquer videochamada. Precisa ser uma ferramenta que garanta que o conteúdo da sessão não é acessível a terceiros.

A presença do terapeuta

Presença não é física. É disponibilidade atencional, escuta ativa, capacidade de estar com o paciente mesmo através da tela. Um terapeuta que atende online olhando para o celular, respondendo mensagens, com câmera mal posicionada que não permite contato visual adequado, não está presente. O setting online exige do terapeuta um esforço consciente de presença que no consultório físico é parcialmente garantido pela estrutura do espaço.

A pergunta clínica relevante não é se o online é melhor ou pior que o presencial. É se o terapeuta está, em cada sessão, fazendo o trabalho de construir as condições que tornam o encontro terapêutico possível. David Carvalho, Psicanalista Clínico Freudiano

Casos em que o online não é indicado

A Resolução CFP 9/2024 é clara quanto às limitações. O atendimento online não é indicado quando há risco iminente de vida, sem que haja protocolo de segurança estabelecido com o paciente, incluindo contato de emergência e serviços de saúde locais. Também não é indicado para avaliações psicológicas que exijam procedimentos específicos não adaptáveis ao formato remoto.

Além das restrições regulatórias, há limitações clínicas que o próprio terapeuta precisa avaliar caso a caso: pacientes com dissociação grave, quadros psicóticos em crise, situações em que o vínculo presencial seja parte essencial do trabalho e não uma preferência logística.

A questão da ética não é burocrática

Manter cadastro no e-Psi, usar plataforma criptografada, assinar contrato que especifique o formato online: esses não são procedimentos burocráticos a cumprir para estar dentro da norma. São a materialização de um compromisso ético com o paciente. Eles dizem ao paciente: este espaço é seguro, este encontro é protegido, o que você traz aqui não sai daqui.

O terapeuta que trata a conformidade ética como formalismo perde de vista o que está em jogo. A norma existe porque o paciente vulnerável que busca atendimento merece garantias que não dependem da boa vontade individual de cada profissional.

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DC
David Carvalho Psicanalista Clínico Freudiano · Fundador, Mundo do Terapeuta

Psicanalista clínico freudiano, com consultório em Atibaia-SP. Escreve sobre mercado de saúde mental, gestão de consultório e desenvolvimento profissional do terapeuta.