Freud chamou de contratransferência, e foi um dos primeiros a tratar o tema com rigor técnico. O que isso significa na prática, em 2026, para o terapeuta que atende sozinho, sem supervisão, cinco dias por semana?
Em 1910, Freud escreveu sobre a contratransferência pela primeira vez, e o fez com uma advertência. Ele identificou que o analista também transfere, também projeta, também leva para a relação terapêutica algo de si mesmo que não foi suficientemente elaborado. Sua orientação foi clara: análise pessoal contínua era obrigação profissional, não opcional.
Em 2026, essa advertência segue completamente atual, e talvez mais urgente do que nunca. O crescimento da terapia online, a expansão do mercado e a possibilidade de atender pacientes de múltiplas regiões sem sair de casa criaram uma situação paradoxal: nunca houve tantos terapeutas atendendo, e nunca houve tão poucos em supervisão regular.
É necessário distinguir. Contratransferência não é simplesmente "sentir coisas" pelo paciente. É o conjunto de respostas emocionais, fantasias e reações que emergem no terapeuta a partir do material clínico do paciente, e que têm raízes na história e nas questões não resolvidas do próprio profissional.
O que o paciente nos diz sobre nós mesmos é muitas vezes o que não conseguimos ouvir de mais ninguém. Por isso é tão incômodo, e tão valioso.
David Carvalho, Psicanalista ClínicoA psicanálise freudiana coloca a posição do analista como um problema clínico central. O analista não pode simplesmente identificar a contratransferência e neutralizá-la, ele precisa trabalhar a partir do lugar em que está posicionado na transferência do paciente. Isso exige um grau de autoconhecimento que não se adquire apenas na formação teórica.
A contratransferência não anuncia a si mesma. Ela se manifesta de formas sutis que, sem o olhar de um supervisor, passam despercebidas:
A supervisão clínica regular é o dispositivo que permite ao terapeuta ver o que não consegue ver de dentro da relação terapêutica. Em 2026, com o mercado em expansão, muitos profissionais reduziram ou eliminaram a supervisão para aumentar a carga de atendimentos. Esse é um dos riscos mais silenciosos da profissão.
Há uma ideologia implícita em parte da cultura psi que torna difícil para o terapeuta admitir que também sofre, também adoece, também tem zonas cegas. Como se a formação fosse um tratamento que conclui, e não um processo contínuo.
Freud sabia que não é assim. Lacan sabia. Os melhores clínicos de qualquer abordagem sabem. O terapeuta que não cuida de si mesmo não consegue cuidar do outro de forma sustentável, por mais boa vontade que tenha.
Cuidar de si não é egoísmo clínico, é a condição de possibilidade do cuidado com o outro.
David Carvalho, Psicanalista ClínicoA matéria de amanhã aborda supervisão: quando buscar, como escolher e o que esperar do processo. Assine o portal para receber.
Psicanalista clínico freudiano, com consultório em Atibaia-SP. Escreve sobre mercado de saúde mental, gestão de consultório e desenvolvimento profissional do terapeuta.