Reflexão

A ferida do terapeuta: o que não resolvemos em nós mesmos aparece no consultório

Freud chamou de contratransferência, e foi um dos primeiros a tratar o tema com rigor técnico. O que isso significa na prática, em 2026, para o terapeuta que atende sozinho, sem supervisão, cinco dias por semana?

DC
David CarvalhoPsicanalista Clínico Freudiano
16 ago 202610 min
1910
ano em que Freud cunhou o termo contratransferência, e já alertava para seu perigo
Freud, 1910
100%
das abordagens contemporâneas reconhecem o impacto do terapeuta sobre o processo clínico
Literatura clínica
≠0
zerado: a ferida do terapeuta não desaparece, ela é gerida, trabalhada, reconhecida
Psicanálise freudiana

Em 1910, Freud escreveu sobre a contratransferência pela primeira vez, e o fez com uma advertência. Ele identificou que o analista também transfere, também projeta, também leva para a relação terapêutica algo de si mesmo que não foi suficientemente elaborado. Sua orientação foi clara: análise pessoal contínua era obrigação profissional, não opcional.

Em 2026, essa advertência segue completamente atual, e talvez mais urgente do que nunca. O crescimento da terapia online, a expansão do mercado e a possibilidade de atender pacientes de múltiplas regiões sem sair de casa criaram uma situação paradoxal: nunca houve tantos terapeutas atendendo, e nunca houve tão poucos em supervisão regular.

O que é e o que não é contratransferência

É necessário distinguir. Contratransferência não é simplesmente "sentir coisas" pelo paciente. É o conjunto de respostas emocionais, fantasias e reações que emergem no terapeuta a partir do material clínico do paciente, e que têm raízes na história e nas questões não resolvidas do próprio profissional.

O que o paciente nos diz sobre nós mesmos é muitas vezes o que não conseguimos ouvir de mais ninguém. Por isso é tão incômodo, e tão valioso.

David Carvalho, Psicanalista Clínico

A psicanálise freudiana coloca a posição do analista como um problema clínico central. O analista não pode simplesmente identificar a contratransferência e neutralizá-la, ele precisa trabalhar a partir do lugar em que está posicionado na transferência do paciente. Isso exige um grau de autoconhecimento que não se adquire apenas na formação teórica.

Os sinais que aparecem no consultório

A contratransferência não anuncia a si mesma. Ela se manifesta de formas sutis que, sem o olhar de um supervisor, passam despercebidas:

Para refletir

Supervisão não é sinal de fraqueza, é o que diferencia um terapeuta de um amigo com boa escuta

A supervisão clínica regular é o dispositivo que permite ao terapeuta ver o que não consegue ver de dentro da relação terapêutica. Em 2026, com o mercado em expansão, muitos profissionais reduziram ou eliminaram a supervisão para aumentar a carga de atendimentos. Esse é um dos riscos mais silenciosos da profissão.

O terapeuta também precisa de cuidado

Há uma ideologia implícita em parte da cultura psi que torna difícil para o terapeuta admitir que também sofre, também adoece, também tem zonas cegas. Como se a formação fosse um tratamento que conclui, e não um processo contínuo.

Freud sabia que não é assim. Lacan sabia. Os melhores clínicos de qualquer abordagem sabem. O terapeuta que não cuida de si mesmo não consegue cuidar do outro de forma sustentável, por mais boa vontade que tenha.

Cuidar de si não é egoísmo clínico, é a condição de possibilidade do cuidado com o outro.

David Carvalho, Psicanalista Clínico

A matéria de amanhã aborda supervisão: quando buscar, como escolher e o que esperar do processo. Assine o portal para receber.

DC
David Carvalho
Psicanalista Clínico Freudiano · Fundador, Mundo do Terapeuta

Psicanalista clínico freudiano, com consultório em Atibaia-SP. Escreve sobre mercado de saúde mental, gestão de consultório e desenvolvimento profissional do terapeuta.

Continue lendo