As redes sociais existiam antes de o terapeuta criar um perfil. O que mudou, quando ele criou, foi a possibilidade de o paciente encontrá-lo lá. E essa possibilidade tem consequências clínicas que vão muito além do constrangimento de um encontro casual.

O setting analítico funciona, em parte, porque o analista é uma figura relativamente opaca. O paciente projeta, transfere, fantaseia. Essa opacidade não é frieza, é um instrumento clínico. Quando o paciente passa a consumir o conteúdo público do terapeuta, partes dessa opacidade se dissolvem. O terapeuta tem opiniões, posições, uma estética, uma família talvez, um cachorro, viagens. Ele deixa de ser uma tela em branco.

O problema não é ter redes. É não pensar sobre elas clinicamente

Ter presença digital não é o problema. É uma realidade para a maioria dos terapeutas que atende em 2026, e a Resolução CFP 6/2019 já reconhece isso regulamentando a publicidade em psicologia. O problema é quando o terapeuta trata as redes como um espaço separado da clínica, como se o que acontece online ficasse do lado de fora do consultório.

Não fica. O paciente que segue o terapeuta no Instagram antes de começar o processo já chega com uma imagem formada. O paciente que encontra o perfil durante o processo e decide não dizer nada acumulou um segredo. O paciente que comenta numa publicação pública criou uma interação que aconteceu fora do setting e vai aparecer dentro dele.

A presença digital do analista não é neutra. É parte do material clínico, queira o terapeuta ou não. A questão é se ele vai trabalhar com isso ou fingir que não existe. David Carvalho, Psicanalista Clínico Freudiano

Cinco cenários reais e o que fazer em cada um

Situações frequentes na prática
01
O paciente pede para te seguir nas redes. Não há resposta certa universal. O terapeuta precisa decidir antes de ser confrontado com a situação. Se o perfil é profissional e público, a solicitação pode ser aceita com clareza de que o conteúdo é clínico e educativo, não uma extensão da relação terapêutica. O que não existe é "aceitar e não falar nada". Quando isso aparece, aparece na sessão.
02
O paciente já te segue e você só descobre agora. O fato de ele ter seguido e não dito nada é material clínico. O que o impediu de trazer isso para a sessão? O que ele espera que você faça com isso? Não confrontar diretamente, mas abrir espaço para o material emergir e trabalhar o que aparecer.
03
Você curtiu acidentalmente uma publicação do paciente. Acontece. Desfazer a curtida não apaga o fato. Se o paciente perceber, vai aparecer na sessão mais cedo ou mais tarde. Se não perceber, você ainda está guardando um segredo dentro do processo. O mais honesto é trazer isso na próxima sessão com naturalidade: "percebi que interagi com sua publicação nas redes, quero conversar sobre isso."
04
O paciente comenta em uma publicação sua de forma pública. Um comentário público do paciente sobre conteúdo do terapeuta é um ato que aconteceu fora do setting. Responder publicamente não é adequado. Ignorar também não resolve. O caminho é trazer para a sessão: o comentário existiu, tem peso, e o que ele representa para o processo merece ser elaborado.
05
O paciente te envia mensagem direta pelas redes sobre um tema clínico. Mensagem direta fora do canal combinado de comunicação é uma tentativa de criar outro setting paralelo. Não responder pelo canal das redes, orientar a trazer o conteúdo para a sessão. Se for urgência, usar o canal combinado no contrato. A resposta pelo Instagram não é neutra e cria precedente.

A dupla exposição: o terapeuta vê o paciente, o paciente vê o terapeuta

Há outro lado que é raramente discutido: o terapeuta que tem acesso às redes do paciente. Seja porque o paciente está logado num computador compartilhado num contexto clínico, seja porque o paciente mostra voluntariamente, seja porque o algoritmo entregou o perfil do paciente ao terapeuta por algum motivo.

O que o terapeuta faz com informações sobre o paciente que chegaram fora da sessão? A regra é a mesma que se aplica a qualquer informação recebida fora do setting: pode ser usada clinicamente, mas não pode ser confrontada diretamente como se fosse dado de fora. Se o terapeuta vê nas redes que o paciente está num relacionamento que jamais mencionou, isso entra na escuta, não na pergunta direta: "vi nas suas redes que...".

Resolução CFP 6/2019 e redes sociais

O que a norma estabelece para o terapeuta digital

A Resolução CFP 6/2019 regulamenta a publicidade em psicologia e se aplica à presença digital. Os pontos mais relevantes para quem tem perfil profissional: é vedado divulgar casos, ainda que sem identificação (o contexto pode revelar); é vedado usar depoimentos de pacientes ou ex-pacientes; é vedado prometer resultados ou garantir curas; e é vedado fazer comparações com outros profissionais ou abordagens. Conteúdo educativo, apresentação de especialidade e divulgação de serviços são permitidos dentro desses limites. Para o psicanalista não-psicólogo, o mesmo padrão ético se aplica por boas práticas.

O que fazer antes de o problema aparecer

A melhor forma de lidar com esses cenários é decidir sua política antes de ser confrontado com eles. Isso significa ter uma resposta preparada para quando o paciente perguntar se pode te seguir. Significa saber como vai se posicionar se um paciente comentar numa publicação sua. Significa ter clareza sobre quais canais de comunicação aceita fora da sessão e o que faz quando o paciente usa um canal não combinado.

Esse conjunto de decisões pode, e talvez deva, ser incluído no contrato terapêutico ou numa conversa inicial sobre setting. Não como regra proibicionista, mas como clareza sobre como esses espaços se relacionam com o trabalho que será feito.

A presença digital como material de supervisão

Situações que envolvem as redes e o paciente são material de supervisão. Não porque sejam necessariamente crisis clínicas, mas porque o terapeuta tem dificuldade de ver sozinho o que está acontecendo quando está dentro do campo. A supervisão permite uma distância que o setting não oferece.

O terapeuta que curte sem querer, que recebe um DM clínico, que descobre que o paciente está monitorando seu perfil, tem material novo para a supervisão. Não trazer esse material é perder uma oportunidade de entender algo que já está dentro do processo, queira ou não.

O setting não termina na porta do consultório. Ele continua onde quer que o terapeuta e o paciente se encontrem, incluindo o feed de quem segue quem. David Carvalho, Psicanalista Clínico Freudiano

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DC
David Carvalho Psicanalista Clínico Freudiano · Fundador, Mundo do Terapeuta

Psicanalista clínico freudiano com consultório em Atibaia-SP. Contato: atendimento@mundodoterapeuta.com.br