Freud foi um dos primeiros a escrever sobre o dinheiro como parte integrante do tratamento, e não como questão periférica. Em 2026, o desconforto de muitos terapeutas com honorários não é ingenuidade financeira. É um sintoma clínico que precisa ser lido como tal.
Em 1913, Freud publicou "Sobre o início do tratamento", um dos textos técnicos mais práticos de toda sua obra. Nele, dedica um trecho específico à questão dos honorários. O tom é surpreendentemente direto: o dinheiro deve ser tratado com a mesma franqueza com que se fala de qualquer outra dimensão da vida.
Freud advertia que o terapeuta que evita a questão dos honorários, que a deixa vaga ou que aceita qualquer coisa sem negociar, está cometendo um erro técnico, não sendo generoso. Para ele, a relação com o dinheiro revela algo da psicopatologia do paciente (e do analista) que não pode ser simplesmente ignorado.
Em mais de um século desde que Freud escreveu sobre isso, o desconforto dos terapeutas com honorários não desapareceu, em muitos casos, aprofundou-se. Algumas hipóteses para esse fenômeno:
Freud foi claro: o dinheiro é libido. Evitar o assunto na clínica não é neutralidade, é uma forma de engajamento com a questão, pela via do silêncio.
David Carvalho, Psicanalista ClínicoA psicanálise contemporânea ampliou a compreensão freudiana. O setting, que inclui horário, frequência, regra fundamental e honorários, não é uma formalidade burocrática. É uma estrutura que possibilita o tratamento. Quando o setting financeiro é frouxo, ambíguo ou inexistente, ele produz efeitos clínicos que muitas vezes são atribuídos a outras causas.
Pacientes que não pagam regularmente tendem a valorizar menos o processo. Terapeutas que não cobram adequadamente tendem a desenvolver ressentimento silencioso que afeta a qualidade da presença clínica. Sessões que começam com 'depois acertamos' frequentemente produzem relações terapêuticas onde os limites em geral ficam difusos. O setting financeiro claro protege o paciente tanto quanto protege o terapeuta.
A conclusão de Freud, e de praticamente toda escola clínica subsequente, é que cobrar adequadamente não é mercantilismo: é condição de possibilidade do trabalho. Um terapeuta financeiramente estável, que não está contando as sessões para fechar as contas do mês, está mais disponível para a escuta. Mais presente. Mais capaz de estar onde o trabalho clínico exige.
A culpa em torno dos honorários não é uma virtude. É um sintoma que vale a pena levar para a supervisão, ou para a análise.
Psicanalista clínico freudiano, com consultório em Atibaia-SP. Escreve sobre mercado de saúde mental, gestão de consultório e desenvolvimento profissional do terapeuta.